‘Por favor, nos salvem deste desastre’, diz menina síria em Ghouta Oriental. ConfirAgora!

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POR O GLOBO / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Menina síria chora em meio ao horror da guerra – Twitter (Syria Charity) / Reprodução

DAMASCO — Os cerca de 400 mil habitantes de Ghouta Oriental, na Síria, estão sofrendo os piores horrores da guerra civil no país desde o dia 18 deste mês, quando o governo de Bashar al-Assad deu início a um intenso bombardeio na região, controlada por rebeldes. Num vídeo divulgado pela organizaçao humanitária Sirian Charity para sensibilizar a comunidade internacional, uma menina não identificada chora pedindo paz. Ela conta que está há dias sem agua, comida ou cobertores dentro de um abrigo subterrâneo

“Nós apenas queremos algo para comer. Por favor, nos salvem deste desastre. Todos os dias há bombardeios. Nós estamos escondidas em um abrigo subterrâneo. Nós temos medo de sair. Que tipo de vida é essa? Já chega. Nós não temos nem água. Todos os dias nós temos que domir no chão e isso está nos machucando. Nós não temos cobertores. Se sairmos para pegar um travesseiro, seremos bombardeadas. Vocês não sabem o que está acontecendo aqui?”, afirmou a criança diante da câmera.

O vídeo, publicado nas redes sociais da ONG francesa na última sexta-feira, mostra ainda outras crianças aglomeradas ao fundo. Segundo a instituição, seu objetivo é atender as necessidades dos pobres e das vítimas que sofrem com a guerra na Síria, por meio do fornecimento de “ajuda alimentar, assistência médica, primeiros socorros e patrocínio órfão”.

A menina, cujo clamor se alastra pela web desde a última semana, criticou o governo sírio de Bashar al-Assad e a participação da Rússia na guerra. Ela pediu apoio dos países árabes ao redor de seu país e frisou que tem fé na proteção de Allah.

“Que Allah puna você, Bashar. Há apenas crianças aqui morrendo de fome. O que você quer de nós? Ah pessoas, nós apenas estamos pedindo por paz e segurança. Nenhuma das nações árabes se importam conosco. Por que a Rússia deixa o regime sírio nos bombardear? Todas as nações nos abandonaram, exceto Allah”, disse.

Rússia quer ação dos rebeldes sírios para que a trégua funcione

Ataques aéreos e disparos de foguete foram reportados nesta terça-feira no enclave rebelde de Ghouta Oriental, sitiada desde 2013, comprometendo a “trégua humanitária” diária decretada na Síria pela Rússia, grande aliado do regime de Bashar al-Assad. Sete civis, entre eles duas crianças e uma mulher, morreram, dois deles durante o horário da suposta trégua, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

O Conselho de Segurança da ONU se reunirá na tarde desta quarta-feira para analisar a situação humanitária na Síria e ouvir, pela terceira vez desde fevereiro, o subsecretário das Nações Unidos para Assuntos Humanitários, Mark Lowcock.

O Exército russo acusou nesta terça-feira os rebeldes sírios de lançarem uma “ofensiva” contra as forças do governo de Assad no enclave durante a “trégua humanitária” decretada por Moscou. O ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, afirmou que os rebeldes sírios e aqueles que os apoiam devem agir para que a trégua na Síria funcione. Segundo ele, Moscou seguirá apoiando o exército sírio para “erradicar a ameaça terrorista”.

— A Rússia e o governo sírio já anunciaram a criação de corredores humanitários em Ghouta Oriental. Agora é o momento da ação dos militantes e dos que os apoiam — declarou Lavrov no Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.

Moscou também acusou combatentes rebeldes de terem disparado morteiros no corredor humanitário entre Harasta e Duma. “Os projéteis explodiram a 500 metros de um posto de controle”, indicou o comunicado.

Após uma noite relativamente calma e da entrada em vigor desta trégua de cinco horas às 9h (4h de Brasília), os ataques aumentaram neste território do qual o governo controla dois terços, de acordo com o OSDH.

“Obuses, bombas e barris de explosivos foram lançados sobre o enclave rebelde”, afirmou o observatório.

A agência oficial de notícias síria Sana, por sua vez, relatou disparos de foguetes contra os corredores humanitários a nível do campo de Al-Rafidain, com o objetivo de impedir os civis de deixar a região. Com a retomada dos combates, nesta terça-feira nenhum ferido foi evacuado, enquanto nenhuma ajuda humanitária pode ser encaminhada.

De acordo com o Ocha, mais de 700 pessoas precisam de evacuação médica de emergência, enquanto 12% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição grave e uma criança em cada três de um retardo de crescimento.

Nas ruas de Duma, os moradores do enclave rebelde, último bolsão de resistência ao poder de Bashar al-Assad perto da capital, expressaram profundo ceticismo sobre o “cessar-fogo russo”, antecipando uma repetição do cenário observado no final de 2016 em Aleppo, a grande cidade do norte assumida pelo regime.

 

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